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PRÍNCIPES E PRINCESAS DOS TEMPOS MODERNOS

As relações humanas não são pautadas exclusivamente pela ótica da realidade, embora com relativa frequência acredite-se que uma postura mais realista em um caso amoroso estabeleça bases sólidas. Isso é o que a prudência aconselha, no entanto, a alma humana é repleta de desvarios, plena de fantasias, e quando o amor está em jogo, a realidade nem sempre é suficiente. Surgem outros elementos geralmente compostos por fatores que estimulam a imaginação. De fato, não somos apenas racionais, somos também imaginativos, e no que tange aos relacionamentos, aquilo que diz respeito à imaginação preenche certos espaços concernentes às expectativas de felicidade.

Mas o que é propriamente a felicidade no amor?

As mudanças sociais ocorridas no último século fizeram com que os conceitos se transformassem na questão dos relacionamentos amorosos, e não se trata apenas de que atualmente sejam aceitas com relativa normalidade formas de amor antes consideradas não tradicionais, mas também o fato de que o comprometimento entre as pessoas deixou de seguir certas normas rígidas. No passado, falávamos de namoro, noivado e casamento. Hoje falamos de uma infinidade de nuances que, se não aboliram totalmente os conceitos tradicionais, ao menos os relativizaram.

Nos tempos atuais, o que se nota é, sobretudo, a dificuldade de estabelecer compromissos. Em parte porque existe uma cultura que estimula as facilidades da vida de solteiro, tornando-a frequentemente mais atrativa, e em parte também porque, havendo essa relativização do amor, sucede consequentemente o acréscimo de possibilidades que torna o leque de escolhas maior. Desse modo, quando os indivíduos não se dispersam nas infinitas possibilidades da relação com uma pessoa em particular, ocupam-se de saltar de encontros casuais a encontros casuais sem firmar compromisso.

Mesmo essa situação não extinguiu totalmente os fatores imaginários que tornam os relacionamentos algo fantasiosos. Refiro-me aos conceitos de príncipe encantado ou princesa à espera de seu salvador, papéis que não combinam com a estrutura social do momento, e que se encontram mas adequadamente nos contos de fadas. Se outrora influenciavam as pessoas através da leitura de livros, atualmente influenciam através do cinema. Conquanto príncipes e princesas ainda existam, e ocupem ocasionalmente o noticiário em nações de regime monárquico, o fato é que tais conceitos, em si mesmos, fazem parte de um passado no qual a monarquia não era apenas uma exceção, mas sim a regra que ditava o poder e os costumes da sociedade. Poucos realmente possuíam as prerrogativas da nobreza, e dentre essas prerrogativas estavam determinados bens materiais que se encontravam acessíveis apenas àqueles que possuíam acesso devido à sua condição familiar. Só os que nasciam nobres poderiam usufruir das benesses relativas à nobreza. Dentre elas, por exemplo, a possibilidade de ter à disposição um coche ou uma carruagem.

Mas com a ascensão financeira da burguesia, o declínio da nobreza motivada pelas revoluções – principalmente a Revolução Francesa – e sobretudo as mudanças trazidas pela Revolução Industrial, inúmeras das prerrogativas exclusivas da nobreza tornaram-se acessíveis aos cidadãos comuns. O automóvel é a carruagem moderna, e muitos acreditam que o príncipe moderno virá necessariamente em um automóvel. Supondo-se que exista certa razão nisso, resta saber se o esforço necessário para adquirir a carruagem dos tempos atuais redundará na conquista de uma verdadeira princesa. Ao estacionar sua carruagem nas cercanias da residência daquela que se imagina ser a princesa, de fato receberá alguém com virtudes relativas à nobreza, ou ao final se surpreenderá na companhia de uma bruxa maléfica?

Porque a condição de princesa não se constitui apenas da ostentação de um vestido caro ou de um belo penteado feito no salão de beleza. Trata-se de possuir qualidades intrínsecas que as facilidades do capitalismo não oferecem. Talvez também a moça em questão acabe descobrindo que dentro da carruagem moderna o que existe é um ogro e não um príncipe. Mas esses são os riscos de acreditar demasiadamente em conceitos que combinam mais com as páginas dos contos de fadas do que com a realidade plausível.


Gabriel Santamaria

 
 
 

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